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Opinião

ARTIGO – A Ciência e a Universidade como alavancas históricas do desenvolvimento

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O advento da Universidade de pesquisa foi o grande motor da ciência nos últimos dois séculos em todo o planeta. Foi ela que permitiu que a renda per capita e a expectativa de vida do habitante da Terra, que foi a mesma durante mais de 1.500 anos, mudasse. Hoje, quase qualquer pessoa vive melhor que Luiz XIV, o Rei Sol, por exemplo. Isso porque o conhecimento científico modernizou técnicas em praticamente todos os setores da atividade humana, como na medicina, na engenharia, na agricultura, entre outros, que enriqueceram a sociedade, as indústrias e permitiram que a população em geral tivesse acesso a melhores produtos, assistência médica e melhores condições de vida.

No Brasil, praticamente toda produção científica brasileira vem delas. A iniciativa privada não tem participação ativa, o que vem se mostrando como um grande erro histórico. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma grande parte da produção científica vem da iniciativa privada. De grandes companhias, como a Bell Laboratories. Andrew Carnegie, um dos americanos mais ricos da virada do século XIX para o século XX foi um dos maiores filantropos, tendo deixado uma fortuna imensa para Fundações e Universidades.

E é por isso que o investimento do Estado em nossos centros de pesquisa e de produção de cultura é fundamental e estratégico para o desenvolvimento nacional. Em nossa história, o governo brasileiro teve um papel de altos e baixos no apoio à ciência e à universidade. Entre as vitórias importantes, há meio século nasceram o CNPq e a Fapesp, que foram generosos e vitais ao desenvolvimento científico. A FAPESP constitui hoje o maior monumento nacional à ciência paulista, e, direta e indiretamente, à ciência nacional.

No Brasil, os investimentos ao longo da história levaram ao desenvolvimento da medicina, com vários centros importantes, técnicas de agricultura a partir de órgãos como a Embrapa, por exemplo, que permitiram que o país tenha se tornado o grande produtor mundial de alimentos. Além da enorme quantidade de engenheiros do país – apesar de ainda haver uma falta destes. Em física e astronomia a universidade também tem dado contribuições enormes, com participação em grandes projetos internacionais.

A Universidade de São Paulo e a Unicamp têm formado um baluarte insubstituível. Mas gostaríamos de ver em toda parte no Brasil esse tipo de empenho. Alguns locais têm lutado bravamente para que isto se faça, com cientistas importantes tentando desbravar regiões brasileiras, e por vezes conseguindo. No entanto, um maior orçamento e uma continuidade temporal são vitais neste sentido: as universidades devem mesmo ser o grande motor da pesquisa, auxiliadas pela iniciativa privada e por órgãos governamentais.

Porém, em diversos momentos, vivemos hiatos no tempo em que a ciência acaba por ser esquecida, o que leva a verdadeiros desastres a médio e longo prazo. O menor investimento nessas instituições tem grandes riscos. A perda de cérebros pode ser fatal. O cientista Michio Kaku, há algum tempo falou da mais absoluta e mais consequente medida americana para o desenvolvimento: o visto americano permitindo a entrada de cientistas de altíssimo nível. Claro que estes cientistas vieram de países como o nosso.

Outra consequência do sucateamento das universidades será a impossibilidade de se produzir ciência e tecnologia, de se produzirem medicamentos de alto custo a preços populares e a perda de técnicas de tratamento médico. A falta de uma elite intelectual modificará o futuro do Brasil. E pensar o futuro é a mais importante via de se ter um desenvolvimento sustentado e sustentável, assim como a melhoria do nível de vida de toda a população.

Independência científica é fundamental em tempos como o atual

O desenvolvimento de tecnologias nos dá independência econômica e independência estratégica. Em tempos difíceis como o que vivemos agora, por exemplo, ninguém vai nos dar tecnologia gratuitamente: veja-se com o problema das vacinas contra a Covid-19. Apenas para citar uma questão atualmente importante, a produção nacional de imunizantes não só garante a proteção da população, mas também gera lucros astronômicos, muito maiores que o aumento da produção agrícola.

Note-se todavia que a produção agrícola também cresce, apenas e tão somente, com técnicas novas e avançadas de produção. Não se deve iludir-se de que apenas medidas administrativas ou políticas possam aumentar ou sustentar a produção de alimentos ou de energia. É necessário haver técnica.

Como consequência dos investimentos menores em Pesquisa e Inovação no país, que vem decaindo há pelo menos uma década, temos observado o aumento de teorias conspiratórias, a propagação de inverdades, a produção de afirmações inverídicas e falsas, que têm sido nocivas à sociedade, levando à perda de vigor de cérebros de altíssimo valor e à perda da crítica social e do pensamento abstrato, levando a sociedade a um fenecimento rápido e por vezes de difícil reversão.

Sociedades científicas produzem mais, sabem mais, desenvolvem-se melhor, pensam melhor, planejam melhor. A sociedade científica é a sociedade que se faz moderna. Países que não desenvolvem ciência têm lideranças que acham que podem impor suas teorias “no grito”, “no berro”.

De modo geral, olhando à nossa volta, vamos perceber que a imensa maioria dos itens foram desenvolvidos pela ciência, desde plásticos até computadores e celulares. Vale a mesma história que já contei várias vezes, mas da qual não me canso: o ser humano pouco se desenvolveu antes da ciência moderna, e sua expectativa de vida era muito baixa. Reis tinham duas dezenas de filhos para poder, um deles, virar herdeiro, já que a grande maioria dos filhos morria ainda criança. A partir da vacina e outros elementos da ciência moderna passamos a ser mais ricos e mais poderosos, mais sábios e mais tecnológicos.

A Revolução Industrial também trouxe consigo novas perspectivas através do que na física chamamos de termodinâmica. A partir da Universidade moderna, da Universidade de Pesquisa, tivemos uma arrancada em direção à modernidade. A química moderna também veio daí.

Na década de 1940, Henry Luce escreveu, na Revista Life o artigo “O século Americano”, em que ele preconizava o uso extenso da ciência. De fato, os Estados Unidos, através da Ciência, foram para a Lua, chegaram em Marte, produzem vacinas em menos de um ano e são a nação mais poderosa da Terra. Isso não é apenas uma coincidência.

Se quisermos um Brasil pujante, maiúsculo, rico, poderoso, magnânimo para sua população, especialmente a mais pobre, façamos Ciência! Com letra maiúscula!

Elcio Abdalla é físico teórico brasileiro com reconhecimento internacional e importante liderança na pesquisa de física teórica no Brasil. Com doutorado e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo, é atualmente professor titular do Instituto de Física dessa universidade, além de coordenador do Projeto Bingo, radiotelescópio brasileiro que está sendo construído no interior da Paraíba que fará o mapeamento da parte escura do universo.

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Anápolis precisa e deve apostar no modelo policêntrico de cidade.

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Quando se debate o processo de urbanização das cidades que têm mente é o modelo prioritário sendo utilizado há milhares de anos. O modelo monocêntrico de urbanização é até hoje é o modelo dominante da estrutura espacial urbana. Nesse modelo a cidade tem o eixo central para onde convergem todos os bairros periféricos. Nesse centro urbano se concentra a vocação comercial e de serviço das localidades.

Maior problema do conceito monocêntrico de cidade. É o impacto no transporte público, a desvalorização imobiliária da periferia, a defasagem de serviços públicos nos bairros fora do centro urbano. Todos esses fatores conduzem para uma cidade segregada e principalmente disfuncional.

Por outro lado o conceito de cidade policêntrica traz a autossuficiência dos bairros e regiões da cidade para o debate. Nesse conceito se explora a ideia de que os bairros devem concentrar vocações comerciais e de serviços de forma a não depender exclusivamente dos centros urbanos.

Em Anápolis não é diferente. A nossa cidade pelo fato de não ter sido planejada sofre impacto ainda maior quando quesito é mobilidade e estruturação urbana em relação a dependência do Centro da cidade.

Na nossa cidade, ainda que de forma não planejada, a cidade avançou com um centro expandido que hoje pode ser considerado o Bairro Jundiaí. Na mesma perspectiva temos a conformação urbana de forma espontânea, ainda que de forma mais tímida, das regiões do Recanto do Sol, da Jaiara, do Bairro de Lourdes.

Entretanto é preciso um olhar maduro por parte dos gestores da cidade para incentivar a auto suficiência dos bairros e regiões mais periféricas da cidade. Anápolis precisa de uma estruturação urbana e econômica de modo que o morador não precise se deslocar longas distâncias, para ir ao trabalho, desfrutar de momentos de lazer e ter acesso a outros serviços, como supermercados, escolas, farmácias, academias, médicos, etc.

A ideia de bairros autossuficientes não elimina a necessidade dos centros urbanos tradicionais, mas a sua implementação ajuda na superação do problema da mobilidade urbana, descentralização da renda, qualidade de vida dos moradores da cidade.

Anápolis pode e deve apostar nesse futuro. Estamos caminhando para ser uma cidade de meio milhão de habitantes em um futuro não muito distante. Logo é preciso planejar hoje a cidade que queremos amanhã.

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ARTIGO – O desafio da reciclagem de embalagens plásticas

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O plástico filme é extremamente prático e serve como um verdadeiro aliado na rotina dentro do lar, principalmente na cozinha, sendo ideal para embalar alimentos e conservá-los por mais tempo – com o uso de produtos que contém ativo bactericida – além de também ser muito utilizado em embalagens para preservar a qualidade de alimentos frescos nos supermercados.

Além disso, aditivos que inativam o Sars-Cov-2 inseridos ao material permitiram que diversos objetos e superfícies com as quais as pessoas têm contato diário em lugares públicos e em suas casas oferecessem uma barreira extra de segurança contra a doença. Este é o caso do Alpfilm Protect® que já contava com propriedades antifúngicas e bactericidas graças à presença de micropartículas de prata e que, com a pandemia, passou por uma série de estudos para adequações em sua composição com o objetivo de assegurar sua eficácia antiviral, em especial contra o novo coronavírus.

Com os diversos usos desse material, principalmente neste último ano, é fácil associá-lo ao montante de outros que contribuem para a poluição do meio ambiente, entretanto poucos sabem que o plástico filme PVC, como é chamado, pode ser reciclado em pontos de coleta seletiva e retornar ao dia a dia em forma de solas de sapato, tapetes, pisos, mangueiras, manoplas e vários outros produtos.

Com isso, apesar da alternativa viável e positiva de reciclagem, hoje ainda não é possível que o plástico PVC retorne ao dia a dia em forma de um novo plástico filme, pois, o produto possui contato direto com alimentos. Isso ocorre porque, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é autorizado somente o uso de material totalmente novo (também chamado de “virgem”) para confecção de embalagens que terão contato direto com os alimentos, exceto o polietileno tereftalato, conhecido como PET.

Ainda assim, vale lembrar que os aspectos positivos da reciclagem do plástico filme vão além da reciclagem única, já que o PVC é um material flexível, podendo ser reciclado diversas vezes sem nenhum problema, retornando ao dia a dia.

Principal gargalo

O alto número de indivíduos no mundo nos coloca em situação grave frente aos recursos naturais e revela um esgotamento próximo nas próximas décadas. Uma das maiores soluções para o excesso de resíduos gerados por esse alto consumo é a reciclagem.

Apesar disso, o número de reciclagem do plástico PVC no Brasil ainda é distante do ideal. Segundo pesquisas encomendadas pelo Instituto do PVC nos últimos anos, o percentual de reciclagem foi em torno de 18%.

E o problema é bem maior quando analisamos o índice da simples coleta de lixo no Brasil. Segundo a pesquisa realizada pela Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU), veiculado na Agência Brasil, cerca de 18 milhões de brasileiros não têm coleta de lixo próximo às suas casas e apenas 3,85% dos resíduos são reciclados.

Outro problema que impede o maior uso de recicláveis é a tributação às indústrias que utilizam plásticos pós-consumo, já que seus produtos apresentam uma carga tributária maior do que aqueles fabricados com matérias-primas “originais”.

O que não faz sentido, no momento em que tais empresas deveriam receber incentivos por atuar juntamente com propostas sustentáveis.

Tudo isso evidencia que um dos principais gargalos ambientais do Brasil é a pouca administração dos resíduos, pouco incentivo à reciclagem e má distribuição de postos de reciclagem e coleta seletiva, estas, ainda em falta na grande maioria dos municípios do país.

Processo de reciclagem é fundamental

A reciclagem é essencial na diminuição da poluição ambiental, sendo revertida em diversos outros produtos e voltando para o uso rotineiro.

Contudo, apesar do plástico PVC reciclável não ser utilizado para contato direto em alimentos, a reciclagem continua sendo fundamental e, acompanhada do uso consciente dos recursos e sem exageros, é uma das melhores soluções para diminuir os danos ambientais, que, infelizmente, tiveram um salto devastador no último século.

Alessandra Zambaldi é diretora de Comércio Exterior na Alpfilm

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ARTIGO – O horror da fome e a indiferença dos homens

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Fome é mais do que uma sensação. É uma desgraça que aflige os humanos que não tem o que comer, ingerem alimentos insuficientes para suprir as necessidades da vida. O resultado dela se mede socialmente e apenas os insensíveis não se indignam pelo fato de viver entre famélicos. Quando estes governam a sociedade, é mau sinal.

Na literatura, a fome foi retratada pelo escritor norueguês Knut Hamsun, em livro publicado no ano de 1890: Fome. Na obra do autor, agraciado com o prêmio Nobel em 1920, um jovem escritor em condições de miserabilidade na Europa da segunda revolução industrial, munido de um toco de lápis, escreve crônicas para jornais para sobreviver nas ruas, sem teto e desnutrido. Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, publicado em 1938, retrata a fome e a miséria no contexto do sertão nordestino, mostrando uma família pobre em retiro forçado pela seca e suas consequências.

A fome é um problema tão grave que é tratada desde a metade do século passado pela Organização das Nações Unidas, que criou em sua primeira sessão, no ano de 1945, a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Esta publica o Indicador de Segurança Alimentar, no qual o Brasil, somente neste século XXI, durante um curto período entre 2013 e 2017, deixou de figurar entre os países com mais de 5 % da população padecendo de insegurança alimentar grave, a fome. O que causa desconforto é que, entre os anos de 1930 até 1980 assombramos o mundo, construindo por sobre a herança colonial e escravocrata uma sociedade moderna, urbana e industrial; porém, excludente e desigual. Um capitalismo de vendedores, sob um arremedo de democracia política.

Na década de 1950, a FAO foi presidida pelo brasileiro Josué de Castro. Este, apesar de formado em medicina, se destacou por pesquisas sobre a fome e suas consequências. Com um dos seus livros, Geografia da fome, lançado em 1946, ajudou a combater preconceitos malthusianos que opunham quantidade de pessoas a oferta de recursos. Mostrou que interesses políticos e concentração de riquezas são as verdadeiras causas do flagelo alimentar que condena indivíduos e sociedades. Foi sua a ideia da criação de uma reserva internacional contra a fome. Seus direitos políticos foram cassados pelo Ato Institucional nº 1, editado pela junta militar que assumiu o governo brasileiro em 1964, mas não foi capaz de vencer a miséria que condenava o próprio povo.

Hoje, com a pandemia da covid-19, o cenário da fome é desalentador. O relatório Estado da segurança alimentar e nutrição no mundo (SOFI, na sigla em inglês), informa que na América Latina e Caribe são 47,7 milhões de pessoas atingidas pela fome. Até 2030, na América do Sul, a estimativa é que a fome atinja cerca de 36 milhões de pessoas. No Brasil, de acordo com pesquisa do núcleo Food for Justice, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität Berlin (IELA-FUB), da Alemanha, a insegurança alimentar atinge cerca 59,4% dos domicílios brasileiros, sendo que em 15% deles ela é grave, ou seja, conforme a classificação do IBGE: há uma ruptura nos padrões de alimentação resultantes da falta de alimentação entre todos os moradores. Há fome.

Mais do que objeto para a obra de literatos, a fome é uma calamidade que acomete as sociedades no Norte e no Sul, desenvolvidas e subdesenvolvidas. É escandaloso que autoridades públicas e donos do dinheiro não se manifestem em seu combate. É horrível que líderes eleitos em regimes democráticos, em sociedades políticas organizadas com a finalidade de promover o bem comum dos seus membros, não se dignem a enfrentá-la com vigor.

Rogério Baptistini Mendes é professor de sociologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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